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Para educar uma criança, é preciso de toda a aldeia | Edição #10

Em nossa primeira coluna nesta revista, lançamos uma pergunta para você. Será que você se lembra qual foi? 


“O que deseja para seus estudantes?”

Foi por meio dessa pergunta que iniciamos uma jornada de reflexões que durou um ano. Falamos sobre afeto, navegar pelas emoções, autocompaixão e autorregulação, interdependência e escuta empática, compaixão e transformação de conflitos. Ufa! Dar conta de um tema tão maravilhoso quanto o papel da compaixão na escola dá pano pra manga, certo?

 

Parece complexo, mas no fim das contas é sobre a resposta para essa pergunta: O que você deseja para seus estudantes? Se pudermos responder essa pergunta com profundidade e clareza, visualizaremos o caminho. Porém, segundo o povo macua, não é possível trilhar esse caminho sozinho. Para esse povo africano, é preciso toda uma aldeia para educar uma criança. 


Foi em Moçambique, no início da década de 1990, período de reorganização pós-guerra civil, que o educador social brasileiro Tião Rocha aprendeu essa lição. Na ocasião, Tião visitou a comunidade de Namalima, lugar repleto de pobreza material, mas cheio de brilhos nos olhos, segundo o educador. Perplexo com a energia daquele povo, Tião perguntou por todo o canto qual era o motivo dessa alegria. Ele encontrou o senhor Antônio Silva, morador das savanas e construtor da única escola de pau-a-pique do vilarejo. Segundo Antônio, assim que a escola ficou pronta, o povo percebeu que não havia professor para ensinar nela. Ele então saiu batendo de porta em porta, perguntando o que as pessoas sabiam e podiam ensinar:

 

– “O que o senhor sabe fazer?”

– “Ah, senhor Antônio, eu sei fazer machamba.” 

– “Ótimo, vai ensinar na escola, uma semana, tá. E a senhora?”

– “Eu sei fazer capulana, Seu Antônio”.

– “Ótimo, vai ensinar na escola, uma semana tá. E a senhora?”

– “Eu sei torrar castanha de caju.”

– “Ótimo, vai ensinar na escola, uma semana, tá”.

 

Foi de porta em porta que senhor Antônio preencheu a grade de aulas de um ano todinho e já tinha fila para dar aula. Segundo ele, não havia feito nada além de “convocar uma aldeia”. Tião voltou para o Brasil determinado a tornar-se um “convocador de aldeias”. Foi com esse valor que ele atuou em comunidades no Maranhão e no Vale do Jequitinhonha, transformando cada uma delas em aldeias que cuidam de suas crianças. 


O que deseja para seus estudantes? Excelência? Sucesso? Recursos? O senhor Antônio Silva desejou uma aldeia inteira para suas crianças. Para os macua, mais importante do que a resiliência individual é a resiliência comunitária. Somente uma aldeia inteira pode garantir o futuro de suas crianças. E somente as crianças podem garantir o futuro de uma aldeia inteira.

 

Que tal convocar sua aldeia para educar as crianças? Essa tarefa pode ser mais fácil do que parece. Você pode buscar grupos já existentes e se juntar a eles, como grêmios, clubes, coletivos, entre outros. O jogo “Primavera X” é um exemplo de gincana social que reúne jovens brasileiros para cuidar dos recursos hídricos no país inteiro. Além disso, existem coletivos juvenis pelo meio ambiente espalhados por toda a parte e ajuda é sempre bem-vinda! 


A melhor parte é que a compaixão é um recurso que quanto mais se divide, mais se multiplica. Por isso, nesse fim de ano, não se esqueça de descobrir sua aldeia...


Caso não encontre grupos com essa causa, você pode, aos poucos, cocriar esse espaço em sua escola. Lembre-se: você está sempre a um passo de encontrar um outro alguém com o mesmo objetivo e esse passo pode ser apenas um convite. Vamos juntos?


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