Compaixão: um ingrediente ético essencial | Edição #8
- Eduardo Pacífico e Valentin Conde

- 28 de set. de 2021
- 2 min de leitura
Em nossa última coluna, falamos sobre a interdependência como parte central de nossas vidas. Em um ambiente educador essa percepção fica ainda mais amplificada. Professoras, estudantes, famílias e equipes... São muitas pessoas envolvidas nesse processo em relações de trocas intensas. Porém, sentir-se parte de uma rede gigantesca de seres, causas e efeitos, pode parecer assustador às vezes. Quando dependemos de alguém e somos desapontados, por exemplo, ou quando nos deparamos com injustiças, é possível que o sentimento de decepção rapidamente se transforme em raiva. E a raiva, dependendo da forma como é aplicada e comunicada, pode ser muito destrutiva. Como podemos contribuir para a sustentação dessa rede de forma proativa e saudável?
Quando estamos envolvidos em redes de cuidado complexas, como uma comunidade educativa, é comum vivenciar emoções desagradáveis. Quem nunca sentiu raiva ao se desapontar com alguém em quem confiávamos? Enquanto resposta emocional, a raiva representa a percepção de que existe um obstáculo entre nós e nossas necessidades e, logicamente, queremos remover esse obstáculo. Em uma sala de aula compassiva, por exemplo, um comportamento de bullying pode ser percebido como um obstáculo para o cultivo da compaixão e diante dele é possível que o educador sinta raiva do estudante agressor. Situações de injustiça costumam produzir muita raiva naqueles que possuem um senso de justiça aguçado.
Mas como podemos navegar em uma realidade interdependente e ao mesmo tempo tão incerta e muitas vezes injusta aos nossos olhos? Sabemos que, para diferentes males, existem diferentes antídotos. Se uma criança se machuca brincando no parque, é preciso ajudá-la a lavar a ferida e depois fazer um curativo para evitar outros traumas. Esse tipo de resposta acaba se tornando intuitiva para nós. Porém, o que poucos sabem é que, quando tratamos de feridas emocionais, o princípio é o mesmo. Existem antídotos para cada uma delas, que podem ser aplicados e utilizados para reduzir os danos de certas experiências traumáticas. No caso da raiva, um excelente antídoto é a compaixão. Segundo Matthieu Ricard, um grande pesquisador na área do comportamento humano, a compaixão pode ser entendida como o encontro do amor de alguém com a dor de outro alguém. A compaixão surge como preocupação ativa em relação à dor do outro e um desejo genuíno de reduzir ou eliminar esse sofrimento.
A compaixão não serve como ferramenta para alienação. Não deve nos levar à indiferença ou à apatia em relação às injustiças sociais. Sentir raiva, inclusive, nem sempre é algo ruim. Segundo o Professor Elie Weisel, um sobrevivente dos campos de concentração da 2ª Guerra Mundial e ganhador do Nobel da Paz, essa raiva é também conhecida como um estado de bravura moral que é muito importante para a superação de injustiças e crueldades. Tal forma de raiva pode nos ajudar a canalizar nossa coragem, tornando-nos ativistas das causas mais importantes para o bem comum. Contudo, Elie Weisel chama a atenção para aquilo que é ainda mais radical e revolucionário: o cultivo da amorosidade. Segundo o Weisel, a bravura moral deve ser equilibrada com a amorosidade, pois essa nos mantém abertos para nossos sentimentos e para os sentimentos dos outros. Quando cultivamos bravura moral e amorosidade podemos encontrar a compaixão, diz o professor. Essa compaixão é a liga perfeita que une nossas vidas interiores com a vida comunitária aqui fora.



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