Por uma escuta empática e um "tudo bem" genuíno | Edição #7
- Eduardo Pacífico e Valentin Conde

- 24 de ago. de 2021
- 2 min de leitura
Oi, tudo bem? A pergunta é verdadeira: tudo bem com você?
Você concorda que o bom e velho “Tudo bem?” se tornou uma pergunta vazia, apenas parte de um rito social despretensioso? Quando será que isso ocorreu? Talvez essa seja uma daquelas perguntas praticamente impossíveis de se responder, tipo “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”. O fato é que numa rotina acelerada como essa que vivemos nos grandes centros urbanos é difícil cultivar uma escuta consciente, acolhedora.
Imagine a cena. Um supermercado no centro da cidade no horário de pico. Um homem apressado passa suas mercadorias na esteira do caixa e, nesse momento, a funcionária cumprimenta com um: Boa noite! Como vai? O homem responde prontamente: Não, obrigado. Já passando as compras do homem e confusa com a resposta, a funcionária pergunta novamente: Como vai? Posso te ajudar? O homem, também confuso, repete: Não, eu não quero o meu CPF na nota. A funcionária sorri e responde: Ok, senhor.
Talvez o homem pareça rude e mal-educado, mas na realidade, muito provavelmente, ele apenas estava operando no automático e infelizmente não esperamos que um estranho se interesse por nós de forma genuína. As relações estão bastante automatizadas em nome da praticidade. Nome, RG, CPF e assim por diante.
Para além disso, desde cedo, na escola, somos avaliados por nossas habilidades de comunicação relacionadas à expressão oral, eloquência e argumentação. Estudantes bem desenvoltos nessas habilidades conseguem bons resultados e são capazes de dominar conversas, apresentações e trabalhos em grupo. Um dos livros mais vendidos de todos os tempos é uma demonstração disso. Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie, foi lançado em 1936 nos EUA e cita experiências de celebridades com perfil extrovertido e dominante como exemplo de sucesso. Décadas depois, essa lógica ainda se mostra predominante com a ascensão dos influencers. No início de 2021, uma pesquisa mostrou que 86% dos jovens estadunidenses desejam ser influencers nas redes sociais.
Mas será que você já parou para se perguntar... No meio desse monte de gente querendo falar e influenciar, quem ouve? Contraditoriamente, não aprendemos a ouvir (pelo menos não intencionalmente) e nem somos avaliados por nossa capacidade de escuta. Não parece haver muita gente interessada em ouvir o que está sendo dito, pelo menos não de forma sensível e humana. O fato é que quando comunicar é mais sobre uma prática comercial do que experiência humana, é difícil pensar na escuta como um elemento ativo no processo. A capacidade de ouvir é diuturnamente considerada uma habilidade passiva e menos importante do que saber se expressar bem.
No lugar de educadores, podemos fazer boas perguntas a partir desse tema: Como a escuta pode contribuir para nossas salas de aula? Como podemos cultivar as habilidades relacionadas à ela? E, finalmente, como podemos avançar para uma escuta empática, mais centrada nas perspectivas do outro e desprendida de nossos pontos de vista? Adoraríamos te ouvir!



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