Professora, pode ser uma hipótese? | Edição #5
- Flávia Pereira Lima

- 29 de jun. de 2021
- 3 min de leitura
Pergunta e hipótese têm papel central no ensino por investigação. Se a pergunta é operacionaliza a curiosidade, a hipótese concretiza o conhecimento prévio. Mas a hipótese em sala de aula vai além: ela descontrói a ideia do erro e potencializa o respeito.
Os dicionários apresentam a hipótese como uma suposição que se faz sobre algo, que pode ser verdadeiro ou falso. Na perspectiva acadêmica, a hipótese é uma resposta provisória a uma pergunta que ainda não foi testada, elaborada a partir de teorias científicas. E na escola? Como uma etapa do ciclo investigativo, compreendo a hipótese como uma explicação construída a partir do que a criança ou o adolescente sabe no determinado momento da pergunta. Portanto, não há certo ou errado, há apenas conhecimento, seja ele de qualquer natureza.
A partir de três casos (porque professora gosta de contar um caso), quero destacar três aspectos da hipótese no ensino investigativo:
Água no fogo — hipótese que liberta
Estávamos a professora de História e eu trabalhando com as crianças sobre o Cerrado. Ao iniciar a discussão, pedi que cada um escrevesse o que entendiam sobre esse bioma. Precisei dar uma rápida saída e ao retornar percebi uma turma agitada. Minha colega foi logo perguntando “Eles querem saber se pode ser uma hipótese” e eu, imediatamente, afirmei que sim. Foi impressionante: as cabecinhas se abaixaram e eles começaram a escrever. Minha colega me olhou perplexa, sem entender muito o que havia ocorrido. Qual o segredo? As meninas e os meninos já haviam compreendido a ideia de hipótese como uma explicação com o conhecimento que possuíam naquele momento e que não havia resposta errada; havia simplesmente uma resposta. Portanto, a hipótese é libertadora! Ela liberta do medo de errar porque todo conhecimento é válido.
Dãããmmm — hipótese que acolhe a diferença
Como explicação a uma pergunta, uma criança apresenta uma resposta que aos colegas parece sem sentido. Logo vem aquele “Dãããmmm” ou adjetivos depreciativos Isso já aconteceu na minha sala de aula, no entanto, frequentemente outra criança intervém e reflete: “Professora, não tem certo nem errado, é o conhecimento do colega, é uma hipótese”. Como fica o coração da professora com essa fala tão respeitosa? Cheio de alegria! A hipótese permite o acolhimento da diversidade, pois há pessoas que naquele momento sabem de algumas coisas e outros não. E isso é perfeitamente compreensível. Somos diferentes inclusive naquilo que sabemos. Portanto, hipótese gera respeito ao outro.
Como acontece a respiração? — hipótese como diagnóstico
Antes de trabalhar os sistemas do corpo humano, sempre faço o diagnóstico do conhecimento delas por meio da produção de hipóteses. Para essa pergunta, três alunas e alunos do quinto ano responderam assim:
“Eu acho que o nosso corpo respira pelo bumbum, porque quando tomamos refri ou comemos algo pesado dá uma vontade de dar uma respirada ali.”
“Eu acho que a respiração vem quando nós puxamos o ar pelo nariz ou a boca e então o pulmão se enche de ar e esvazia quando soltamos pela boca ou pelo nariz.”
“Respiramos oxigênio que vai para o pulmão e este ar é limpo e devolvido.”
Ao conhecimento prévio foi dado o status de hipótese. Sem medo de ser julgada, uma criança relaciona a respiração ao pum e, convenhamos, nos dois há gases. Podemos ser levados a concluir que a segunda hipótese é a melhor, mas temos que sempre fazer o exercício de que na fase de diagnóstico não há vantagem em estabelecer quais hipóteses são melhores ou piores. Há sim muita informação para a professora organizar seu trabalho pedagógico a partir do que os alunos já sabem e daquilo que precisam aprender.
Ao longo deste texto, destaquei que a hipótese carrega o conhecimento que cada aluno possui num determinado momento. Logo, os pontos de partida são distintos. Mas é papel da professora e do professor organizar a etapa investigativa para que, ao final, todos atinjam os objetivos de aprendizagem propostos, entre eles, a compreensão dos conhecimentos científicos. O aspecto momentâneo da hipótese denota ainda outra boniteza do aprender: à medida que aprendemos, elaboramos novas hipóteses e sofisticamos cada vez mais as nossas explicações sobre o mundo.





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