Pelo brilho da chama | Edição #2
- Flávia Pereira Lima

- 23 de mar. de 2021
- 3 min de leitura
Quem acendeu um fogão à lenha sabe que é preciso soprar para o fogo pegar. Fogo precisa de oxigênio para seguir vigoroso. E para nós, professoras e professores, qual é o oxigênio para fazer brilhar a chama nos olhos das meninas e dos meninos?
Para mim, é a curiosidade!
Curiosidade pode ser definida como “o desejo de novos conhecimentos, informação, experiência ou estímulos para resolver lacunas de conhecimento ou experimentar o desconhecido [1]”.Portanto, curiosidade passa pela vontade de aprender. Passa também por identificar a insuficiência do conhecimento. Ou, ainda, que há um mundo inteiro, macroscópico e microscópico, a ser descoberto. A curiosidade pode ser um traço da personalidade. Há pessoas mais propensas em ser curiosas, como percebemos em sala de aula. Mas ela também pode ser despertada por estímulos ambientais e é aqui que o nosso sopro pode agir.
É nosso dever estimular a curiosidade dos nossos alunos, sejam crianças, adolescentes, jovens ou adultos. Para isso, é necessário orientar a nossa prática para a pergunta que incentiva a busca por respostas e, consequentemente, gera aprendizagem, como defendem Paulo Freire e Antonio Faundez [2] . Até pode parecer simples, mas essa orientação exige mudança na postura do professor. Mas mudanças, a gente bem sabe, precisam de dedicação e vigilância.
Claro que cada professor vai construir, reelaborar, ressignificar – como queira chamar – aorientação para a pergunta a partir da sua história. Eu sempre fui uma professora que buscou uma ativa participação dos alunos em aula, perguntando e ouvindo as questões levantadas. Mas, por muito tempo, centralizei o conhecimento em mim e lá estava eu, explicando e entregando os conceitos. Olhando para trás parece que eu estava equivocada, mas fazendo um exercício de generosidade, entendo que eu fazia o melhor naquele momento. A partir de reflexões, estudos e conversas com meus colegas, novas ideias e práticas foram surgindo. A primeira mudança foi entender que eu não era a senhora do conhecimento. Costumo brincar com meus alunos que eu não sou Google, aliás, o buscador tem muito, mas muito mais informação do que eu. Uma prática que adotei foi responder perguntas com outra pergunta. Se uma menina me pergunta “Por que a planta é verde?” eu devolvo para turma “Todas as plantas são verdes, ou existem plantas de outras cores?”. Pergunta por cima de pergunta estimula o florescer do conhecimento.
Mas não dá para parar na pergunta. A pergunta, compartilhada dentro da sala de aula, é apenas o ponto de partida no processo de investigação. E é aqui que o repertório do professor entra em ação: estruturar um processo investigativo para se alcançar respostas. É no percurso investigativo que a curiosidade deve ser cada vez mais estimulada para que leituras, experimentos, observações sejam realizadas com vontade. Paulo Freire (Ele de novo, claro!) desenvolve a ideia de curiosidade epistemológica [3] . Para ele a escola deve possibilitar que a curiosidade se torne cada vez mais complexa, mais crítica, permitindo a passagem do senso comum para o conhecimento científico. É uma curiosidade que ganha método e “por ques” mais complexos. E isso pode ser aprendido? Claro, desde que haja em sala de aula situações em que a pergunta deixa de ser uma busca por respostas imediatas e torna-se o ponto inicial da investigação.
Há mais de 100 anos John Dewey [4] já conclamava os professores a estimular a curiosidade dos alunos “A tarefa (do professor) é manter viva a centelha sagrada da surpresa e abanar a chama que já brilha. Seu desafio é proteger o espírito da investigação, evitando que se torne sem graça pelo excesso de excitação, amadeirado pela rotina, fossilizado pela instrução dogmática, ou dissipado pelo exercício aleatório das coisas triviais.”
Respeitosamente hoje sou eu a lhe convidar, colega, a soprar a chama. O seu oxigênio é capaz de gerar calor, desejo e aprendizagens. É capaz de gerar transformação.
1. GROSSNICKLE, E. M. Disentangling curiosity: dimensionality, definitions, and distinctions from interest ineducational context. Educational Psychology Review, v. 28, p. 23-60, 2016.
2. FREIRE, P; FAUNDEZ, A. Por uma Pedagogia da Pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
3. FREIRE, P. À Sombra desta Mangueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.
4. DEWEY, J. Natural resources in the training of thought. In: DEWEY, J. How we think. New York: D. C. Health & CO Publishers, 1910. p. 29-44.



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