"Faz de conta que...": O papel da imaginação no aprender | Edição #9
- Flávia Pereira Lima

- 25 de out. de 2021
- 3 min de leitura
Imagine um tatu com garras superpoderosas. Ele é capaz de cavar um buraco na superfície da Terra e chegar até o centro do planeta. Não é à toa que ele se chama Tatu Power, o maior escavador da galáxia! O que será que ele encontrará pelo caminho? A temperatura no interior da Terra será a mesma da superfície? Tenho certeza de que bateu aquela vontade de pegar uma carona com o Tatu Power nessa viagem!
Famosos personagens, vez e outra, aparecem nas minhas aulas de Ciências: a Eteolinda, uma ET que quer saber tudo sobre o nosso planeta; a Dona Geninha, uma senhora com várias perguntas sobre a natureza; o Sebastião, um esqueleto esquecido que vive perdendo seus ossos; e o Tatu Power. Posso dizer que todos são sucesso e incentivam meus alunos e alunas a se envolverem nas aulas e a se dedicarem na realização das atividades. Muito melhor explicar para a Eteolinda o que é uma orelha-de-pau do que simplesmente elaborar uma resposta sobre os fungos. Os personagens dão cor e sabor às aulas, geram engajamento e vontade de aprender. A imaginação permite experimentar novas ideias e diferentes possibilidades, sem as restrições da vida real.
À primeira vista, a imaginação parece incompatível com o ensino de Ciências, no qual buscamos entender e explicar a natureza por meio das evidências científicas, construídas historicamente pela aplicação do método científico. Mas, na sala de aula, podemos sim juntar imaginação às evidências, cada uma tendo um papel relevante na construção do conhecimento. Isso também é o que defende a Yannis Hadzigeorgiou em seu livro Educação Científica Imaginativa (tradução livre). Para ela, a imaginação faz parte da própria Ciência, visto que muitos objetos de estudo são não observáveis e cientistas estão o tempo todo envolvidos em modelos, elaborando experimentos, buscando soluções criativas para os problemas, pensando fora da caixinha. A própria hipótese nasce de uma construção imaginária e tudo isso envolve o desenvolvimento de imagens mentais.
Na sala de aula, a imaginação também se faz presente quando alunas e alunos são desafiados a aprenderem sobre fenômenos não diretamente observáveis, como a fotossíntese, quando damos pitadas de fantasia com os personagens ou propondo, por exemplo, que cada um se transforme em um átomo de carbono para compreender o ciclo biogeoquímico desse elemento. A história da Ciência também tem um papel relevante em despertar a imaginação e engajar as alunas e os alunos em investigações envolventes. O que pode ter pensado Carlos Chagas diante as evidências de uma nova doença no interior de Minas Gerais? Quais evidências Marie Curie encontrou para a construção da ideia de radioatividade? Os estudantes podem percorrer a história de diversos cientistas e tentar entender os desafios teóricos e sociais de cada época. E claro, a imaginação preenche as lacunas, construindo cenários e ajudando cada um a se situar em outros tempos.
A imaginação tem tudo a ver com o ensino investigativo. Aliás, a investigação em sala de aula fica muito mais rica e envolvente quando aliada a ela. O novo, o misterioso, a descoberta e as emoções geram o tão desejado encantamento por aprender. Por isso, desejo que, em toda a sala de aula, de qualquer disciplina, em todo o canto do Brasil, a imaginação esteja presente tanto nas cabeças dos alunos quanto nas de seus professores!
Referência:
Hadzigeorgiou, Yannis. Imaginative Science Education: The Central Role of Imagination in Science Education. Springer, 2016.



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