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Um mistério, muitas intenções | Edição #6

“Dona Augusta, uma funcionária da escola sempre assídua e pontual, faltou ao trabalho. O que aconteceu? Se tem mistério, vamos investigar!”

A atividade O mistério de Dona Augusta (acesse aqui) foi a forma que elaborei para que as meninas e meninos compreendessem o conceito de hipótese. Nela, o primeiro passo é elaborar possíveis explicações sem nenhuma informação de referência. As mais variadas respostas, muitas delas trágicas, aparecem (ela morreu, o carro furou o pneu, ela ficou doente etc.). O próximo passo é elaborar explicações a partir de informações da rotina da funcionária e de acontecimentos na cidade. É interessante notar como as explicações vão sendo moldadas pelas informações fornecidas.

Finalmente, é o momento de cada aluno e aluna lançar mão da explicação que mais acredita. Logo depois, bate à porta uma colega do trabalho trazendo o recado escrito da Dona Augusta (tudo previamente combinado). Ela faltara ao trabalho porque estava com dengue. Escuto o alvoroço daqueles que investiram nessa resposta e o muxoxo dos que não. Nesse momento faço a seguinte pergunta “Sua hipótese foi confirmada?” Essa é a primeira vez que a palavra “hipótese” surge na atividade e na aula. Além disso, não questiono sobre acerto e sim sobre a confirmação da hipótese.

Vamos destrinchar as intencionalidades por trás dessa atividade:

i) Por que investir tempo numa atividade ao invés de explicar o conceito de hipótese?

Porque dessa forma o aluno se envolve ativamente e entende o papel de se construir uma explicação como uma etapa para se resolver um mistério. Assim, a aprendizagem avança da conceituação para a compreensão.

ii) Por que iniciar elaborando explicações sem nenhuma informação?

Para que possam registar com liberdade as explicações, sem nenhum tipo de cerceamento. É importante que compreendam esse tipo de exercício de liberdade. Mas isso também gera um termo de comparação que reforça, no próximo passo, o valor das sugestões construídas baseado nas evidências observadas.

iii) Por que elaborar explicações a partir de informações/evidências observadas?

Para que percebam que a coleta de dados nos ajuda a explicar os mistérios (e, futuramente, os fenômenos). Coletar informações/evidências é necessário para se resolver um mistério/problema. Isso também reforça o conceito de que a solução não cai magicamente nas mãos: ela é fruto do raciocínio e análise.

iv) Por que do recado trazido pela colega do trabalho?

Porque a fantasia também faz parte da aula, tornando-a mais divertida e interessante. As crianças adoram quando eu leio o recado da Dona Augusta. Olha aí o encantamento sendo feito! (A coluna chama-se Pedagogia do Encanto porque essa que vos escreve defende que as aulas devem ser emocionantes, porque aprender é bom demais!)

A próxima fase da atividade é destinada à reflexão e sistematização. Assim que o burburinho da revelação diminui, refletimos se de fato a explicação pode ser etiquetada como certa ou errada, dado que foi elaborada a partir das determinadas informações disponíveis. Construo com a turma a noção de que as possíveis explicações, chamadas a partir desse ponto de hipóteses, são elaboradas com o conhecimento que possuímos num determinado momento. Quanto mais conhecimento possuirmos, maior a chance de a explicação ser mais próxima do real. E mais: à medida que vamos aprendendo, novas hipóteses podem ser elaboradas. E claro, vale consultar o dicionário para sistematizar o conceito de hipótese.

 

E dessa forma o conceito de hipótese é operacionalizado e se torna rotineiro nas aulas de Ciências. É bonito ver a hipótese entrando na aula e, dia após dia, se tornando mais completa em suas dimensões de liberdade e o respeito.

Mas aí veio a pandemia. As atividades passaram a ser remotas e sem interação com os alunos, nem mesmo virtual. Sai de cena o mistério da Dona Augusta e entram os casos, pequenas histórias também repletas de intencionalidade pedagógica (acesse aqui).

Por trás de uma hipótese, muitas informações. Por trás de uma atividade, muitas intenções. E refletir sobre o que que queremos atingir com cada ação proposta em sala de aula é um dos gostosos desafios da nossa profissão.


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