Profissão professora em 2021: uma retrospectiva docente | Edição #11
- Professora Fique Bem

- 6 de dez. de 2021
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Todo o ano é a mesma coisa: no dia 1º de janeiro, já estamos rodeados por pessoas queridas, em festa; em fevereiro, como bem cantou Jorge Ben Jor, tem carnaval; no meio do ano, celebramos o Dia das Mães, as festas juninas… E então, chegam as férias escolares! No segundo semestre, temos o Dia dos Pais, o Dia da Criança, o Dia dos Professores… Não demora para o Natal chegar e, logo, recomeçamos a sequência. Norteados por festas, por abraços e por reencontros, registramos os meses com almoços familiares ou participando de grandes eventos. Contudo, como todos sabemos, não aconteceu bem assim nos últimos dois anos. Nos distraímos e já é 2022!
QUANDO DOIS ANOS PARECEM TER SIDO APENAS UM
“A percepção que eu tenho é de que 2020 e 2021, por todos os desafios que vivemos, viraram um ano só. Nós fomos privados de vivenciar rituais importantes que nos ajudam a compreender esta demarcação de tempos e fases. Além disso, quem trabalha com educação e foi privado de estar presencialmente com os estudantes ficou com esta sensação de lapso temporal, de lacuna, de ausência de um tempo real, efetivo, em contato com eles”, pontua a professora Gina Vieira Ponte, que leciona há mais de 30 anos no Distrito Federal e que foi colunista da Revista Fique Bem durante todo o ano de 2021.
“Termos sido sequestrados para uma outra forma de viver, trabalhar e estudar, nos trouxe uma sensação de perplexidade, uma sensação de que a nossa vida estava suspensa, um mal-estar generalizado, que foi tornado ainda pior pelo pânico que o risco de contaminação com o vírus e o risco de perder alguém criaram na gente”, lembra a professora. Segundo ela, os primeiros dias do período de pandemia foram os mais complicados, quando ela se encontrou com os sentimentos de impotência e de profunda tristeza.
Contudo, não demorou muito para que a professora sentisse a necessidade de reagir àquela situação. “Eu me dei conta de que estávamos em meio a uma guerra contra um inimigo invisível e de que era importante ir para as trincheiras com as armas com as quais eu conseguiria batalhar”, comenta a autora do Projeto Mulheres Inspiradoras — que já acumula 15 prêmios, inclusive internacionais.
“Ver os profissionais da saúde no fronte, fazendo o enfrentamento corajoso, ver as famílias lutando por sua sobrevivência, os gestores públicos éticos e comprometidos com a democracia cumprindo o seu papel, me inspirou e me provocou a me perguntar qual era o meu papel e que contribuições eu poderia dar naquele momento”, desabafa a professora. Motivada por essa vontade de fazer a sua parte, Gina ministrou mais de 350 palestras de março do ano passado até dezembro deste ano, estabelecendo contato e criando vínculos com professores de todo o país.
Viva à ciência! — e à parceria entre professores
Para a professora Flávia Pereira Lima, que leciona Ciências em Goiás e assinava a coluna Pedagogia do Encanto aqui nesta revista, 2021 foi um ano difícil, mas bastante diferente de 2020, por conta do conhecimento científico que acumulamos com o passar dos meses na pandemia.
“Como a ciência desenvolveu informações sobre o coronavírus e a gente entendeu melhor o que estava acontecendo, isso me trouxe tranquilidade. Afinal, eu preciso ter informações para me sentir tranquila e compreender o que está acontecendo”, reforça a professora. “Então, foi um ano difícil. Mas eu estava refletindo aqui, em relação aos alunos e à escola, e os sentimentos que eu tive neste ano foram muito parecidos aos que eu sinto na escola, em um ano regular, no presencial. Só que foram mais fortes”, admite Flávia.
“O que eu senti muito esse ano foi uma angústia de que eu poderia estar deixando algum aluno para trás, porque eles não estavam conseguindo acessar tecnologicamente de maneira adequada, porque o ensino remoto é muito desafiador, tanto para eles, quanto para nós professores… Isso me angustiou muito! Por outro lado, eu tive a forte sensação de que eu fiz o melhor que eu poderia fazer dentro do possível, sabe?”, considera nossa amiga de Goiás. “Então, foi esse equilíbrio, da angústia que acompanha todo o professor e também o sentimento de realização, por ver que — apesar de tantos desafios — os estudantes estavam aprendendo. Assim, a gente percebe o quão importante é a escola!”, reflete.
Assim como Gina, que se dedicou a realizar trocas com professores de todo o país, Flávia percebeu que sozinha não estava. “Como eu tenho um grupo de colegas que trabalha de forma muito orgânica, a gente se suporta muito, isso me trouxe uma certa tranquilidade”, aponta. A professora Flávia, inclusive, é uma das pessoas que participou da idealização do Fique Bem, desde o seu início, sendo a responsável pelo nome do projeto. Hoje, já atingimos mais de 150 mil professores em todo o país. E não é que juntos somos mais fortes mesmo?
Ensinamos muito — aprendemos mais ainda
Se Cora Coralina dizia que “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, temos motivos suficientes para nos sentirmos verdadeiros alunos neste ano. Afinal, em 2021, todo mundo aprendeu muito. Principalmente nós, professores. Começou com a necessidade de adaptação rápida de todo um planejamento, bem no meio de um ano letivo. Vivemos desafios inimagináveis no ensino remoto, tivemos que equilibrar pratos no ensino híbrido, e respeitar novos protocolos no ensino presencial — isso sem contar a vida fora das salas de aula.
“Os estudantes, ao retornarem para a escola, estavam animados e também com muitas expectativas com o chamado “novo normal”. No início, foi muito difícil manter o distanciamento na sala de aula, não poder trabalhar em grupo com os colegas e não ter o recreio para correr, se abraçar, pular… Foi bastante complicado para todos nós. Aos poucos, porém, eles foram se acostumando com a situação e os protocolos de segurança foram fazendo parte da nossa rotina”, relata a professora Lorena Bárbara Santos Costa, que também foi colunista da Revista Fique Bem, e leciona na rede pública municipal dos municípios de Salvador e Lauro de Freitas, na Bahia.
“Em 2021, vivi acompanhada por muitos sentimentos: vivi expectativas, senti medo, tive esperança e me agarrei à fé. O principal aprendizado que levo deste ano é que não podemos perder a esperança jamais e que devemos defender a ciência como forma de preservar a vida”, conta Lorena. Flávia, por sua vez, diz que ficou encantada ao notar, na prática, como pessoas do mundo inteiro se uniram para buscar enfrentar os desafios deste ano. “De 2021, o que eu trago muito forte em mim é a importância do trabalho coletivo, sabe?”.
“Juntos, a gente consegue pensar caminhos, pensar rotas, para vencer grandes dificuldades. Eu senti muito isso esse ano, com todos os desafios impostos no trabalho, na escola. Juntamente com meus colegas, a gente pensou, dialogou, construiu juntos, errou, reconstruiu… Então, eu sou muito fascinada sobre como nós, seres humanos, podemos enfrentar desafios juntos e reconstruir, mesmo quando tudo se desestabiliza. Taí a ciência, em 2021, demonstrando a importância de um trabalho coletivo”, conclui.
Por fim, a professora Gina acredita que o grande aprendizado de 2021 passa pela compreensão de algo que ficou escancarado para todos que se debruçaram sobre a área da educação no Brasil durante a pandemia:
“O aprendizado mais importante é a reafirmação de que os nossos problemas educacionais são, antes de tudo, problemas de desigualdade social. Não é possível falar em garantia de aprendizagens, sem estar atento à garantia de tantos outros direitos sociais, e agora, inclusive, o direito à inclusão digital. Além disso, não é possível falar de garantia de direitos sociais sem a menção ao racismo estrutural, que é a base da organização da sociedade brasileira”, afirma.
“A pandemia nos mostrou, ainda, que é necessário, como diz o grande professor Antônio Nóvoa, compreender que uma educação apartada das novas tecnologias, vai estar preparando os estudantes esplendidamente para um mundo que não existe mais”, considera. “Por outro lado, não podemos perder de vista que, quanto mais tecnológico for o mundo, mais nós precisaremos de uma educação que se comprometa com a humanização dos sujeitos. A educação é, antes de tudo, um processo de humanização. Neste sentido, outro aprendizado importante que obtivemos foi quanto ao fato de compreender, em maior profundidade, que tecnologia por tecnologia não traz inovação na educação”, conclui a professora.



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