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Para a promoção de uma educação emancipadora, a escola deve propor um Currículo Integrado | Edição #6

Nas últimas colunas, nós apresentamos algumas reflexões sobre a importância de construirmos projetos político-pedagógicos que se comprometam com uma educação que se se dê em e para os direitos humanos. A pergunta diante desta proposição é: como? Como a escola pode promover um fazer pedagógico antissexista, antirracista e fazer isso superando a falsa dicotomia entre “ou eu ensino os conteúdos ou eu trabalho temas ligados aos direitos humanos”?

O primeiro passo a dar é compreender a diferença entre o Currículo Coleção e o Currículo Integrado. O professor Francisco Thiago Silva (2020) menciona que o termo “Currículo Coleção”, foi elaborado por Berstein (1977) para se referir a uma abordagem curricular em que os conteúdos a serem ensinados na escola estão separados e delimitados entre si. Para os autores, se queremos propor uma abordagem curricular que permita o desenvolvimento integral dos estudantes, precisamos de um currículo em que os diversos conteúdos não façam caminhos distintos, mas, um currículo em que os conteúdos a serem ensinados mantém uma relação entre si. Currículo Integrado, portanto, é aquele em que os diferentes componentes curriculares dialogam entre si, a partir de uma abordagem interdisciplinar, e de um trabalho pedagógico coletivo, em que os docentes de uma unidade de ensino não atuam como ilhas, mas em permanente diálogo entre si, com o território, com os sujeitos envolvidos e alcançados pela Organização do Trabalho Pedagógico.

Para a materialização de um Currículo Integrado é muito importante compreender o que são eixos estruturantes e eixos transversais. Eixo estruturante é “o elemento nuclear que dá base e sentido ao currículo integrado, em que as disciplinas e áreas, num movimento que não é estático, mas dinâmico, promovem a verdadeira construção coletiva do conhecimento, com o auxílio dos eixos transversais” (Silva, 2020, p.58). Já os eixos se traduzem em estratégias que favorecem “uma organização curricular mais integrada, focando temas ou conteúdos atuais e relevantes socialmente e que, em regra geral, são deixados à margem do processo educacional” (SANTOMÉ, 1998, Currículo em Movimento).

Quando a escola define os eixos transversais com os quais pretende trabalhar, ela deve fazê-lo observando o que aponta a Pedagogia Histórico- Crítica, que sugere: “o estudo dos conteúdos curriculares tomará a prática social dos estudantes como elemento para a problematização diária na escola e sala de aula e se sustentará na mediação necessária entre os sujeitos, por meio da linguagem que revela os signos e sentidos culturais” (Currículo em Movimento, 2014, p.32).

Portanto, as perguntas que o corpo docente da escola precisa fazer é: ao observar as práticas sociais dos estudantes, que aspectos relacionados à diversidade e aos direitos humanos são identificados? Quais são os índices da comunidade no tocante à violência contra a mulher, por exemplo? Na escola há incidência de comportamentos relacionados ao racismo e ao machismo? Os livros didáticos adotados pela escola, ainda privilegiam a presença masculina na construção da história do Brasil e da humanidade? Quais são as representações sociais de grupos historicamente excluídos, trazidas nestes livros? Ainda trazem povos tradicionais, indígenas, africanos e negros ou representados de forma folclorizada e estereotipada?

As respostas a estas perguntas permitirão a cada unidade de ensino pensar em eixos transversais que atuarão como a argamassa que vai conectar os conteúdos a serem trabalhados. Neste sentido, é importante destacar que, para construir e consolidar um trabalho pedagógico alinhado à ideia de Currículo Integrado e educação em e para os direitos humanos, é fundamental compreender que não há receitas ou manuais, não há caminhos pré-estabelecidos a seguir. O que há é o entendimento de que para cumprir o objetivo de garantir o direito às aprendizagens, a educação não pode relegar a segundo plano temas que são caros à consolidação da escola como espaço para a formação dos valores plurais e republicanos. Tão importante quanto garantir que os estudantes aprendam os conteúdos é garantir que eles o façam compreendendo a própria realidade, sabendo lê-la criticamente. Conectar o ensino dos conteúdos à realidade é atribuir sentido a esses conteúdos, e melhor ainda, é tornar as aprendizagens mais significativas.


Referências bibliográficas:

SILVA, Francisco Thiago. Currículo Integrado, eixo estruturante e interdisciplinaridade: uma proposta para a formação inicial dos pedagogos. Brasília: Ed. Kiron, 2020.

DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Currículo em Movimento da Educação Básica: Cadernos dos Pressupostos Teóricos. Brasília: SEEDF, 2013.


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