“Não trabalho educação antissexista porque isso vai tirar tempo da minha aula para dar o conteúdo” | Edição #5
- Gina Vieira Pontes

- 29 de jun. de 2021
- 3 min de leitura
Desde que comecei a ministrar palestras e a dar formações sobre a promoção de uma agenda educacional antissexista, ouço a afirmação de que trabalhar gênero e raça, na escola, significa tirar tempo importante que deveria ser usado para ensinar os conteúdos do currículo. Normalmente esta afirmação vem de profissionais da educação bem intencionados, comprometidos com a questão da aprendizagem, mas que ainda mantém as suas concepções pedagógicas vinculadas às teorias tradicionais do currículo ou que acreditam na falsa e persistente dicotomia: “ou eu ensino os conteúdos ou eu formo para a cidadania, não há tempo suficiente para fazer as duas coisas”.
Antes de tudo é preciso dizer que, como abordamos em parte na nossa primeira e segunda colunas, a escola trabalha gênero o tempo todo - em todas as práticas da escola há tecnologias de gênero - na separação de brinquedo de menino e menina, na oferta de futebol para meninos e de balé para meninas quando se promovem atividades curriculares complementares, na omissão da escola frente aos relatos de assédio reportados pelas meninas, na utilização de material didático que apaga a presença das mulheres da história. Então, ainda que a escola não tenha consciência disso, ela é parte daquilo que chamamos de machismo e racismo estrutural.
O segundo ponto que precisamos mencionar é que quando defendemos a promoção de uma agenda educacional antissexista e antirracista não estamos falando em abandonar o compromisso com a aprendizagem. Pelo contrário, estamos anunciando um compromisso ainda maior e mais qualificado com a garantia do direito à aprendizagem e ao desenvolvimento integral dos estudantes. Estamos recusando uma educação instrucionista e bancária para aderir a uma educação que ofereça condições de aprendizagens significativas. Paulo Freire, autor que formula o conceito de “Educação Bancária”, destaca que esta concepção de educação parte da crença de que educar é reduzir o estudante a ouvinte, expectador do professor, a quem a margem de ação que é dada é decorar, memorizar conteúdos, guardar informações. Na perspectiva da Educação Bancária “Não pode haver conhecimento pois os educandos não são chamados a conhecer, mas a memorizar o conteúdo narrado pelo professor...” (Freire, 2017, p. 97).
O que buscamos com a promoção de uma agenda educacional antissexista e antirracista é o que está anunciado naquilo que Freire designa como educação libertária ou emancipadora, a partir da qual os estudantes não são tratados como recipientes dóceis de depósitos, nos quais os professores e professoras depositam ou transferem informações, mas investigadores críticos, “em diálogo com o educador, investigador crítico, também”. (Freire, 2017, p.97). Se queremos uma educação que seja capaz de formar pessoas que consigam pensar criticamente a realidade em que vivem, precisamos superar a falsa dicotomia de que abordar temas relacionados aos direitos humanos, aos valores plurais é perda de tempo e conflita com ensinar os conteúdos.
Quando menciono que aderir a uma agenda educacional antissexista e antirracista tornará a aprendizagem mais significativa e os processos pedagógicos mais qualificados, as pessoas me perguntam: “E, como é possível fazer isso? Como ensinar os conteúdos e, além disso, promover construção do pensamento crítico, possibilidades de desenvolvimento integral? Este será o assunto da nossa próxima coluna.
A propósito, por falar em rechaçar a Educação Bancária e abraçar uma proposta pedagógica orientada pelo diálogo, contem-nos, na sessão de comentários, o que acharam do texto e que perguntas têm sobre o que conversamos aqui. Vai ser um prazer dialogar com vocês! Até a próxima!





Comentários