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O Feminismo é contra os homens e contra a Família Tradicional Brasileira? | Edição #3

Tenho observado que, nessa chamada Quarta Onda Feminista, ou Quarta onda de luta por direitos das mulheres, precisamos dar destaque à discussão sobre porque uma agenda educacional antissexista e anti-machista é importante para os meninos e para os homens.  Digo isso, porque tenho observado, também, cada vez mais, a manifestação de tentativas de desqualificação do Movimento Feminista, e a propagação da narrativa de que o Feminismo é contra os homens.

Em especial grupos conservadores e reacionários atuam produzindo conteúdo que, a todo custo, tenta propagar a ideia de que é necessário lutar contra o Feminismo porque esse é um movimento que coloca em risco a existência da “Tradicional Família Brasileira”, porque tira o poder dos homens e os subalterniza em relação às mulheres.

É preciso expor a desonestidade intelectual dessas narrativas porque, de fato, embora haja variações do Feminismo, nenhuma corrente feminista tem como agenda lutar contra os homens ou subalternizá-los. O Feminismo não combate os homens, ele combate as masculinidades hegemônicas tóxicas que educam os homens para uma forma destrutiva de exercer a masculinidade.

A pesquisadora Valeska Zanello, psicóloga clínica e doutora em psicologia pela Universidade de Brasília, que pesquisa gênero há mais de 25 anos, destaca os pilares que constituem as masculinidades em países como o Brasil. Segundo ela, como já discutido em parte nessa coluna, no mês passado, ser homem dentro da cultura brasileira, está associado a: embrutecer consigo mesmo e com o mundo, a entender as mulheres como subalternas e desprovidas de qualidades tão nobres quanto as deles. Significa também competir com outros homens considerados inferiores, de acordo com os valores sociais e culturais de um determinado período histórico. Também é parte da construção de masculinidades no Brasil “a não aprendizagem da renúncia sexual e da frustração dos seus desejos (para muitos, tratava-se e trata-se até hoje de um ‘direito’). A representação que se firmou foi, portanto, a de que os ‘instintos sexuais’ (ênfase nas aspas) dos homens são ativos, ‘naturais’, insaciáveis e fora da possibilidade de domínio, controle renúncia”. (Zanello, 2018, p. 192)

O reflexo das masculinidades forjadas nesses termos é que nós somos um país campeão de estupros de meninas e de mulheres, o quinto país no mundo em violência doméstica, e um dos países que mais mata a população LGBTQI+. Oitenta por cento das meninas que sofrem abuso sexual são abusadas por um homem próximo delas - o pai, o padrasto, o tio, o vizinho, o primo - ou seja, a cultura que educa os homens para a não renúncia sexual os faz acreditar que eles têm o ‘direito’ de satisfazer os seus desejos sexuais a qualquer custo. É contra isso que o Feminismo e a Educação Antissexista lutam, contra essa forma de ser homem que é danosa aos homens, às mulheres e à sociedade de um modo geral. Os Movimentos que atuam em defesa dos Direitos das Mulheres defendem, também, o direito de os homens construírem e exercerem outras masculinidades fora desses estereótipos. Os Movimentos Sociais que lutam por direitos das mulheres lutam para que a casa, que é um dos ambientes mais tóxicos para mulheres e meninas, seja transformada em um ambiente onde homens, mulheres e crianças possam viver em paz.

 

Saúde Mental, Gênero e Dispositivos - Cultura e Processos de Subjetivação - Valeska Zanello


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