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Como promover uma prática pedagógica antissexista na educação infantil e nas séries iniciais | Edição #7

24 de ago. de 2021
3 min de leitura

No embalo do encerramento das Olimpíadas de Tóquio, trago aqui para a nossa conversa deste mês mais uma reflexão sobre como promover uma educação que se dê em e para os direitos humanos, pensando especificamente o trabalho voltado para as relações de gênero nas séries iniciais. Nos últimos anos, com a quarta onda do feminismo e com a democratização do debate sobre o tema, impulsionada pelas redes sociais, mais docentes e famílias passaram a estar preocupados com uma educação que estimule o pleno desenvolvimento das meninas, e que apoie os meninos para a construção de masculinidades insurgentes. E, quando falamos da primeira infância e das meninas, sempre ouço a pergunta: “Mas, qual o problema de as meninas quererem ser princesas? Por que as feministas condenam os Contos de Fada? Por que elas dizem que as meninas não podem sonhar em ser princesas?"

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Para responder a esta pergunta, vou trazer para o nosso diálogo, a imagem da Rayssa Leal, campeã olímpica de Skate, que se tornou conhecida por fazer manobras radicais, vestida de fadinha! A imagem da Rayssa fazendo as suas performances incríveis, sem abrir mão do sonho de ser fada é a celebração de uma educação que liberte a todos nós dos estereótipos de gênero. Não há problema em que as meninas sonhem em ser princesas e fadas. Inclusive, é fundamental lembrar da importância dos contos de fada para a elaboração dos conflitos internos, para a organização da nossa existência. As narrativas têm um papel imprescindível na construção da nossa subjetividade.

 

Mas, é necessário destacar que elas são situadas histórica e politicamente, e mais ainda, é importante lembrar o que diz Salman Rushdie, quando afirma: “Ideias, textos, até mesmo pessoas podem se tornar sagradas...mas embora essas entidades, uma vez estabelecida sua sacralidade, busquem proclamar e conservar seu próprio caráter absoluto, sua inviolabilidade, o ato de torná-los sagrados é, na verdade, um evento histórico... E os eventos históricos devem estar sujeitos ao questionamento, à desconstrução, até mesmo à decretação de sua obsolescência (...) (Silva, 1997, p.129). O problema dos Contos de Fada, em especial aqueles produzidos pela Disney, é que eles atuam como Pedagogias Afetivas, definem que identidades são permitidas para as meninas. A questão, portanto, não é querer ser princesa, mas ser a princesa definida pelo patriarcado, um sistema de opressão que privilegia, celebra e promove a mulher que se silencia, que obedece, que anula a si mesma em nome de ser escolhida pelo príncipe, e que reduz a sua existência e os seus projetos de vida ao espaço doméstico.

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As imagens congeladas de princesas dóceis e subservientes, que têm como possibilidade identitária para si mesmas, projetos atrelados a serem escolhidas por um príncipe, precisa dar lugar a outras imagens- imagens de fadas e princesas como as que a Rayssa materializou, fadas fortes e corajosas que fazem manobras radicais, princesas que sonham em viajar o mundo ou em se tornarem grandes cientistas, princesas que podem viver plenamente o seu potencial, sem serem constrangidas a se encaixar em expectativas que as limitam. Princesas e fadas que sonhem com tudo isso, e também em casar-se e ter filhos, a partir de uma escolha lúcida, e não em função dos constrangimentos de uma cultura sexista e patriarcal.

 

A infância é um terreno sobre o qual todos nós seguiremos caminhando pelo resto de nossas vidas. Promover projetos pedagógicos voltados às relações de gênero não significa desprezar que a infância é o momento para estimular a imaginação, a criatividade, os sonhos, apresentar o que a vida tem de bonito. Não podemos parar de contar histórias para as meninas e para os meninos, mas precisamos cuidar de que o conteúdo que estamos levando para eles e elas não esteja a serviço de aspectos negativos da nossa cultura. Como nos adverte Silva (1997), “(...) a Pedagogia é uma prática cultural que deve ser responsabilizada ética e politicamente pelas estórias que produz, pelas asserções que faz sobre as memórias sociais e pelas imagens de futuro que considera legítimas.” Se queremos um futuro em que as meninas tenham uma vida plena, livre de violências, e em que os meninos sejam capazes de promover masculinidades insurgentes, que se recusem à desumanização promovida pelas masculinidades hegemônicas, tóxicas, precisamos nutrir a infância de narrativas que anunciem este futuro.

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Referências bibliográficas:

​Silva. Praticando estudos culturais nas faculdades de educação. In: SILVA, Tomaz Tadeu (Org.). Alienígenas na sala de aula- uma introdução aos estudos culturais em educação. Ed. Vozes. 11º ed. Petrópolis. RJ, 2013.

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