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Uma escola pelo afeto | Edição #2

“O que você aprendeu hoje na escola?”, perguntam as famílias atentas, ávidas por saber o resultado da educação. Perguntamos nós, educadoras e educadores, ávidos por validar nosso trabalho. Perguntamos todos, com as melhores intenções, demonstrando interesse.


A pergunta pressupõe que seja possível repartir, quantificar e subdividir as experiências em aprendizagens e que, quem passa por isso — no caso a criança — olha para tudo o que viveu como o relojoeiro olha para as engrenagens de um relógio.


O corpo, separado do processo, precisa deixar a mente responder o que aprendeu na escola. Esse é o pensamento cartesiano que pensa a educação como fruto do uso da razão, da lógica. Já disse o pai dessa tradição: Penso, logo existo. Nesse dualismo, claramente a razão se sobrepõe à emoção, sendo uma característica mais “elevada”, tendo que “controlar” as emoções, o nosso “lado sombrio”. Descartes tinha seus motivos para separar corpo e mente lá no século XVII, mas será que nós temos motivos para continuar fazendo isso hoje?


O afã é tão grande com os resultados que esquecemos a pergunta que realmente importa: “O que você sentiu hoje na escola?” Afinal, sabemos que é pela via afetiva que a aprendizagem se realiza.


Pesquisas mostram que professores que conseguem ter uma relação afetiva e cooperativa com os alunos obtêm maior satisfação, bem-estar e os alunos têm mais interesse pelos estudos e maior sucesso na aprendizagem. 


Porém, muitos de nós não fomos capacitados para promover essa educação afetiva. O tema é estigmatizado ou negligenciado na formação de professores no Brasil. Talvez deixemos de perguntar pois temos medo da resposta. Uma pesquisa da OCDE conduzida em 2018 mostra que 23% dos estudantes brasileiros se sentem sozinhos na escola e 13% se sentem tristes o tempo todo. 


O que esperamos que estudantes aprendam sozinhos e tristes numa escola que deseja resultados em detrimento de emoções? 


Vamos recorrer ao nosso patrono da Educação no Brasil, Paulo Freire, em seu livro Professora, sim; tia, não – cartas a quem ousa ensinar de 1997: 


“É preciso ousar, no sentido pleno desta palavra, para falar em amor sem temer ser chamado de piegas, de meloso, de a-científico, senão de anti-científico. É preciso ousar para dizer, cientificamente e não bla-bla-blantemente, que estudamos, aprendemos, ensinamos, conhecemos com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e também com a razão crítica. Jamais com esta apenas. É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional”. 


Numa era em que a ciência tem nos mostrado que emoção e razão são componentes interdependentes na educação, já está na hora de mudar essa frase. Que tal “Sinto, logo existo.”? 


Gostaríamos de convidar você para vivenciar a sala de aula (seja ela física ou virtual) de forma mais aberta aos processos afetivos e para isso, nos próximos artigos, vamos falar sobre a construção de habilidades que podem nos ajudar nesse sentido. 


Bora com a gente?

 

Sugestão de leitura para aprofundamento do tema: 


Artigo “A afetividade na relação educativa” de Marinalva Lopes Ribeiro, disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-166X2010000300012&script=sci_arttext

 

Artigo “Afetividade nas práticas pedagógicas” de Sérgio Antônio da Silva Leite, disponível em https://www.redalyc.org/pdf/5137/513751440006.pdf

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