Dia do Professor ou da Professora? As desigualdades entre homens e mulheres e a Economia do Cuidado | Edição #9
- Gina Vieira Pontes

- 25 de out. de 2021
- 3 min de leitura
No mês em que celebramos a profissão do magistério, em especial nos dias 05 e 15 de outubro, que são, respectivamente o Dia Internacional e Nacional do Professor, convido a vocês, leitoras e leitores da Revista Fique Bem, a pensarem na relação entre o magistério e a questão de gênero, focalizando as assimetrias culturais entre homens e mulheres.
É ponto pacífico que o Brasil é um dos países que menos valoriza a carreira docente. É muito raro que se ouça um jovem declarar que deseja abraçar o magistério como projeto de vida. Salários baixos, péssimas condições de trabalho, turmas superlotadas, crianças e adolescentes cada vez mais resistentes ao modelo educacional hegemônico e uma formação que nem sempre prepara os docentes para lidar com esta resistência são alguns dos fatores que explicam a pouca atração que a carreira exerce nas novas gerações.
E, para falar da desvalorização e da precarização do magistério, é imprescindível trazer para o debate também a questão da desigualdade entre homens e mulheres. A história mostra que, até meados do século XIX, o magistério era uma profissão para os homens. Depois deste período, em função de uma demanda cada vez mais crescente de professores, houve a chegada de muito mais mulheres à profissão e, somado a isso, a adoção do discurso de que as mulheres são naturalmente mais vocacionadas ao magistério, sobretudo, na Educação Infantil e nos Anos Iniciais, porque teriam, por sua natureza feminina, mais habilidades para o cuidado e para a proteção do que os homens. Esta perspectiva está muito ligada a uma lógica sexista que faz com que, na nossa cultura, todo o trabalho do cuidado seja delegado às mulheres. Este trabalho, por sua vez, não é valorizado, porque sequer é considerado trabalho.
Um estudo da Ofxam Brasil mostra que 85% do trabalho de cuidado não formal no Brasil é feminino. Pesquisas do IPEA apontam que, se este trabalho do cuidado fosse contabilizado, ele corresponderia a 11% do PIB, ou seja, seria mais que o total produzido pelos setores Agropecuário e Industrial. Muito da desvalorização do magistério na educação básica, na fase que vai da Educação Infantil aos Anos Finais, se explica pelo fato de que esta é uma etapa onde a presença feminina é de mais de 80%.
É preciso que haja a compreensão de que educar envolve exercer cuidado e proteção, mas vai muito além disso: exige permanente qualificação técnico- profissional. O debate precisa ser em torno do fato de que, toda profissão que envolve cuidado precisa ser valorizada e bem remunerada. Além disso, deve considerar que a capacidade de exercer cuidado não é uma qualidade intrínseca às mulheres, é uma capacidade a ser aprendida e desenvolvida por todos. Profissões e postos de trabalho considerados “naturalmente masculinos” ou seja, aqueles ligados a chefiar, comandar, ligados à tecnologia, às áreas de exatas, são sempre mais valorizados que profissões e postos de trabalho que, se imagina pela cultura sexista, deveriam ser exercidos por mulheres.
Falar em promoção de igualdade de gênero, significa pensar políticas que ressignifiquem a maneira como são percebidas, remuneradas e representadas culturalmente as profissões delegadas às mulheres. É indispensável incluir no debate sobre valorização da carreira docente, a reflexão sobre a urgência de valorizar as profissões que, por fatores históricos, sociais e culturais, se tornaram predominantemente femininas.
Neste sentido, é importante que se diga que desigualdades de gênero impostas às mulheres, e em especial, às profissionais da educação estão tão naturalizadas na nossa cultura, que mesmo com a carreira tendo presença feminina de mais de 80%, nós ainda falamos de “Dia do Professor” e não “Dia da Professora”. A utilização do masculino universal na língua é resultado deste processo histórico que definiu o homem como o parâmetro, como o sujeito universal e a mulher como “o outro”. Não marcar o feminino na língua é uma forma de apagar e invisibilizar as mulheres.
Por isso, neste mês do professor, eu quero agradecer a todas, todos e todes os profissionais da educação que têm se dedicado com compromisso e seriedade ao magistério, e parabenizá-las pelo extraordinário trabalho que realizaram no contexto da pandemia, diante da imposição do modelo de ensino remoto. Eu conversei com docentes do Brasil inteiro e o que vi de dedicação destas profissionais é comovente. O meu orgulho por ser professora se renovou e se fortaleceu muito vendo o que minhas colegas de profissão fizeram.
Por isso, hoje, eu escolho dizer: Feliz Dia da Professora! Eu tenho certeza de que os educadores, os homens, que são aliados das mulheres na luta por igualdade, vão sentir-se honrados e incluídos pela utilização do feminino nestas felicitações, como nós, mulheres, tivemos que nos sentir incluídas nas felicitações pelo “Dia do Professor”, desde sempre.



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