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Sobre encantamentos | Edição #1

No segundo ano do Ensino Médio eu descobri que existiam seres vivos que apresentavam apenas um buraco no sistema digestório. Isso mesmo, pelo mesmo orifício o animal se alimentava e eliminava os excretas. Para uma cabeça acostumada a entender os animais com dois buraquinhos, isso foi um choque, a cabeça deu tilt, ou atualizando, o cérebro bugou. Eu fiquei tão absurdamente encantada que comecei a falar alto “Eu vou fazer Biologia, eu vou fazer Biologia.” Passado o êxtase, veio o incômodo: como eu poderia ter chegado até ali sem saber disso?

Mais do que definir minha vida profissional (Sim, me tornei bióloga!), este episódio carrega duas fortes marcas minhas. A primeira é o encantamento por aprender. Sempre que aprendo me sinto mais viva, mais forte. Sou fascinada por essa espécie Homo sapiens tão capaz de criar perguntas, de investigar, de responder, de perguntar de novo. Sou encantada pela curiosidade das crianças que questionam sem medo. Sou encantada pelas palavras, pela música, pelo mundo natural, pela ciência, por tantas coisas que me emocionam. Aliás, encanto e emoção andam de parzinho, lado a lado, num parque florido. A segunda marca é me incomodar. Sou uma pessoa movimentada por incômodos internos, não daqueles causados por outros. Junta a pulga atrás da orelha com o bicho carpinteiro e pode saber, tem algo se mexendo em mim, querendo sair e tomar forma em texto, atividade para minhas alunas e meus alunos, ações... Foi assim com essa coluna que ficou rodando na cabeça por dias e começou a incomodar tanto que tive que sentar para escrever. Incômodo e movimento sobem juntos na prancha para o salto na piscina.

Mais do que bióloga, me tornei professora. Mais do que professora: professora de Ciências de criança! É com as meninas e os meninos na escola que o encanto, a emoção, o incômodo e o movimento se misturam em leituras, experimentos, produções textuais, investigações e no mais precioso “Ahhhh, professora, entendi.”. Confesso que sou uma caçadora desse “Ahhhhh” que sai do relaxamento e do entusiasmo de quem aprendeu. Sou caçadora também de olhos arregalados que percebem que há algo novo e interessante a ser aprendido. Sou caçadora de risadas, debates e silêncios produtivos. Sou ganhadora de abraços, de segredos compartilhados, de muito carinho de crianças que entendem que aprender é transformador.


Inspirada em Paulo Freire há muito tempo quero escrever sobre uma Pedagogia do Encanto. Sobre o que tenho aprendido nessa caminhada de ensinar e aprender Ciências. Sobre a importância da curiosidade, do respeito, do afeto, do mistério, do jogo, da colaboração, do ouvir, do olhar, do sentir... Com o convite para contribuir com a revista Fique Bem, não há mais desculpa para deixar para depois. Então é agora!

Se encante e encante!

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