A literatura infantil na construção da identidade da criança e a educação para as relações étnico-raciais | Edição #8
- Lorena Bárbara Santos Costa

- 28 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Quantos livros com personagens negros você leu na sua infância? Quantos livros com a temática racial seus filhos conhecem ou já leram? A escola dos seus filhos trabalha com a literatura negra para promover o respeito às diferenças e o engajamento na luta contra o racismo?
Pensar sobre essas questões nos ajuda a perceber o quanto, durante muito tempo, a cultura negra foi silenciada e ficou excluída dos cânones literários. Com o engajamento dos movimentos sociais na luta contra o racismo, vários escritores e escritoras negros passaram a ter suas obras visibilizadas e, hoje em dia, já podemos encontrar muitas histórias que contam a história e cultura dos povos africanos e afrodiaspórico, assim como a literatura afrofuturista, que projeta o negro como protagonista de suas próprias histórias e o rompimento com as condições de opressão, marginalização e subalternidade que o povo negro foi submetido ao longo dos séculos.
Os estudantes negros e afrodescendentes precisam conhecer as histórias que valorizem os seus ancestrais, seu grupo étnico, sua cultura e sua estética corporal. Ter acesso a outras narrativas voltadas à valorização da cultura africana, através da literatura infantil, possibilita à criança conhecer outras rainhas e reis, outras princesas e príncipes, outras heroínas e heróis, assim como outras cosmologias.
No Brasil, com a implementação da Lei.10.639/03, vários livros com a temática africana vêm ocupando cada vez mais espaços nas salas de aulas para contribuir com a educação antirracista. O acesso à literatura negra desperta nas crianças o senso crítico, estabelece um diálogo entre as diferentes culturas, quebrando paradigmas eurocêntricos enraizados em nossa sociedade.
Durante muito tempo, apenas os “contos clássicos”, eram as histórias valorizadas na literatura infantil. Acontece que histórias como Branca de Neve, Rapunzel, Cinderela, Pequeno Príncipe, A Bela e a Fera e tantas outras não representam a diversidade étnica e cultural do nosso país e ainda contribuem para reforçar os estereótipos preconceituosos da estética e cultura hegemônica brancocêntrica.
Conforme a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, em seu livro, O Perigo de uma história única:” Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e ressaltar o mal. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida”. Sendo assim, a autora nos alerta sobre o perigo de tornar apenas uma história como única e exclusiva fonte verdadeira, pois, para ela, é preciso ouvir e conhecer outras histórias e pontos de vista diferentes sobre uma mesma história.
Uma educação antirracista precisa ser construída coletivamente com o apoio da equipe pedagógica, da gestão escolar, da família e da comunidade. Dessa forma, sugerimos que a família e a escola estimulem desde cedo o contato das crianças com a literatura negra, a fim de contribuir com uma educação para as relações étnicos-raciais.
A seguir algumas sugestões de livros e sites para aprofundarmos o nosso debate:
Livros:
Os Contos de Fadas na Perspectiva Afro-baiana- Maria Izabel Muller
Bucala a pequena princesa do quilombo do Cabula- Davi Nunes
Ensina-me sobre Garvey- James Wilson
Aú o Capoeirista e o Fantasma do Farol- Flávio Luiz
Angola Janga- Marcelo D´Salete
Calu uma menina cheia de histórias- Cássia Vale
O Conto dos Orixás- Hugo Canuto
Igbo e as Princesas- Marcus Cajé
O Menino de Asas Invisíveis- Ricardo Ishmael
Amoras- Emicida
O Pequeno Príncipe Preto- Rodrigo França
Meu crespo é de Rainha- bell hooks
O Black Power de Akin- Kiusam de Oliveira
HQ Pantera Negra- TA-NEHESI COATES
HQ Província Negra- Kaled Kanbour
Sites:
Referências:
OVINO, Ione da Silva. Literatura infanto-juvenil com personagens negros no Brasil. In. SOUZA, Florentina e LIMA, Maria Nazaré (Org). Literatura Afro-Brasileira. Centro de Estudos AfroOrientais, Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.



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