A investigação na sala de aula | Edição #4
- Flávia Pereira Lima

- 25 de mai. de 2021
- 4 min de leitura
Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Miss Marple, Tintim, Rabugento, Bugiganga, Sol, Pippo e Bento (os detetives do Prédio Azul). Por gerações, detetives fascinam crianças e adultos em livros, filmes, séries e desenhos animados. Durante as investigações, esses profissionais observam, coletam pistas e analisam até obterem uma resposta. O que não falta é emoção na vida dos detetives!
A investigação pode estar na sala de aula, porque emoção combina demais com aprender, concorda? Você, colega professor, deve ter se deparado com a abordagem investigativa na BNCC, mas especificamente na disciplina de Ciências.
Podemos compreendê-la como uma abordagem pedagógica na qual os estudantes se apropriam de métodos e práticas próprios das ciências para construírem o conhecimento. É uma abordagem que se baseia na resolução de problemas e que permite o desenvolvimento de diversas habilidades para isso*.
Quero discutir aqui quatro aspectos desse conceito. Primeiro, trata-se de uma abordagem pedagógica que estrutura o processo de aprender em fases, à semelhança de uma pesquisa científica: 1. A orientação: momento de estimular a curiosidade da turma e no qual o problema é estabelecido; 2. A conceitualização: etapa na qual as perguntas de pesquisa são formuladas e as hipóteses elaboradas; 3. A investigação: planejamento, coleta e análise dos dados; 4. Conclusão: conclusões são elaboradas e comparadas às hipóteses; 5. Discussão: processo de comunicação e reflexão sobre as descobertas*.
O segundo ponto é a apropriação de métodos e práticas das ciências. Apropriar é adaptar, reelaborar, não meramente replicar. Nunca foi meu objetivo formar pequenos cientistas capazes de realizar experimentos com maestria a partir de instruções determinadas. Pelo contrário! Na abordagem investigativa a criatividade e a diversidade dos métodos são valorizadas. A observação, o experimento, a leitura, a mensuração de variáveis são procedimentos a serem utilizados. Um equívoco frequentemente associado à investigação é que ela deve ser, necessariamente, experimental. Nada disso! É possível coletar dados para testar uma hipótese por meio da leitura de textos e análise de gráficos, por exemplo.
O experimento tem um poder de envolver a turma e gerar discussões incríveis (no futuro escreverei sobre isso) mas não é condição necessária para o trabalho investigativo. Com as crianças, preciso dar suporte na fase de coleta e dados, oferecendo textos e material experimental, por exemplo. Mas com os adolescentes dos Anos Finais e Ensino Médio a investigação pode se dar com mais autonomia, sempre, claro, com a mediação efetiva do professor.
O terceiro aspecto é que a investigação é uma abordagem ativa na construção do conhecimento. Respostas não são dadas, conceitos não são transmitidos. O processo é fundamentalmente participativo e promove a aprendizagem ativa. Todo o percurso gera aprendizagens de conceitos, habilidades, procedimentos. Tanto se aprende conteúdos quanto a respeitar os diferentes caminhos e respostas.
O quarto ponto é o papel da resolução de problemas. Os problemas podem ser de natureza prática, por exemplo, “O que fazer para se economizar água na escola?” ou de natureza teórica “Por que nem toda folha é verde?”. O potencial integrador de trabalhar com os problemas é enorme: diferentes conteúdos das mais diversas disciplinas podem ser requeridos, assim como permite-se o desenvolvimento de habilidades próprias da resolução de problemas. Não é difícil perceber como essas habilidades saltam facilmente do contexto escolar para o cotidiano dos alunos.
A abordagem investigativa não é exclusividade da disciplina Ciências. Todas as demais disciplinas escolares podem recorrer aos métodos científicos próprios da área para a investigação em sala de aula. No CEPAE/UFG o ensino da Matemática se dá pela investigação, com resolução de problemas, hipóteses e tudo mais! Colegas da Língua Portuguesa frequentemente falam em “hipóteses da escrita” e neste ano as professoras do segundo ano dos Anos Iniciais realizaram um lindo projeto com as “Cartas Investigativas”. É a investigação por toda parte!
Não é por acaso que introduzo a proposta investigativa nas aulas de Ciências comparando o nosso trabalho em sala aula ao trabalho do detetive. Se ele ou ela (porque também temos mulheres detetives) tem um mistério a resolver, nós temos um problema para investigar! Se o/a detetive tem suposições, nós elaboramos as hipóteses. Se ele/ela recolhe as pistas, nós coletamos os dados por meio da leitura, da observação, do experimento. Assim como o profissional, analisamos os dados e chegamos a uma conclusão que vai ou não corroborar a nossa hipótese.
E a pergunta que não quer calar: dá para fazer a investigação numa sala de aula com poucos recursos didáticos? Dá sim! Tem que fazer em todas as aulas? Tem não! Posso afirmar que nem sempre, ao trabalhar um conteúdo de Ciências, consigo realizar todas as fases da investigação, mas a essência da abordagem ainda está lá, no problema, na hipótese e na investigação, na minha postura como professora. É tão interessante como a investigação entra no cotidiano da sala de aula, ao ponto de fazer parte do vocabulário das crianças. Mas vamos pendurar essa conversa no cabide que ela ainda rende muito mais.
Referências:
*Pedaste, M. et al. Phases of inquiry-based learning: Definitions and the inquiry cycle. Educational Research Review, v. 14, 2015.



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