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Tecnologias de Gênero - como elas podem impactar a aprendizagem e o desenvolvimento de crianças, adolescentes e adultos na escola? | Edição #2

O nosso papo de hoje aqui na coluna é um aprofundamento da nossa conversa anterior. Vamos falar sobre Tecnologias de Gênero para entender como elas impactam o desenvolvimento e as aprendizagem dos estudantes e como a escola pode construir projetos político-pedagógicos atentos a uma agenda antissexista. Para falar sobre Tecnologias de gênero, precisamos refletir sobre algumas questões: Como nos tornamos as pessoas que nos tornamos? Como as nossas emoções, afetos e imaginários são construídos? Como a nossa autoimagem e a nossa autoestima são formadas? Diferentes campos do conhecimento como a Psicologia, a Antropologia, as Ciências da Educação apontam que os nossos sentimentos, emoções e afetos não são construções individuais. A Psicologia Histórico-Cultural nos lembra que somos sujeitos sociohistóricos, nos tornamos pessoas na nossa relação com o mundo - nossa família, a escola, a comunidade onde vivemos. Essas relações são constituídas, nutridas e pautadas pela cultura da qual fazemos parte. E o que eu chamo de cultura aqui é tudo o que nós produzimos como formas simbólicas de atuar, representar, incidir e interagir no mundo.

Entender cultura nessa perspectiva é fundamental para compreender sobre o que estamos falando quando discutimos Tecnologias de Gênero. Quem discute esse conceito é Teresa de Laurettis. Ela define Tecnologias de gênero como esses vários modos simbólicos que fazem parte da cultura e que cumprem o objetivo de definir papeis, performances e atribuições diferentes para homens e mulheres, a partir de uma perspectiva binária. Envolvem, por exemplo, brinquedos, que sugerem que as meninas devem ocupar o espaço doméstico e exercer exclusivamente a maternidade, vislumbrar o casamento como único projeto de vida, e aos meninos oferecem possibilidades de serem super heróis, engenheiros, astronautas, cientistas, jogadores de futebol. Também são Tecnologias de Gênero os contos de fada que representam as mulheres como princesas frágeis, sem protagonismo e os homens como príncipes salvadores de quem as mulheres dependem para obter a sua felicidade. Comédias românticas, novelas, comerciais de televisão, desenhos infantis, músicas, filmes, todos esses produtos culturais podem estar a serviço de promover relações entre homens e mulheres marcadas por assimetrias, ou seja, marcadas pela crença em uma suposta superioridade dos homens em relação às mulheres, e marcadas, também, pela negação de outras possibilidades identitárias que transcendam o paradigma binário heterossexual homem/mulher.

 

O fato de as meninas viverem em uma cultura em que elas são subalternizadas, objetificadas, desumanizadas e que as colocam, desde antes do nascimento, como seres de segunda categoria, em relação aos homens, traz impactos em relação a como essas meninas se percebem, traz prejuízos à sua autoestima e, portanto, traz desdobramentos para a sua aprendizagem e para o seu desenvolvimento. O fato de pessoas que não se enquadram nessa lógica binária (homem e mulher) viverem dentro de uma cultura que sequer reconhece a sua existência, que só lhes reserva espaços marcados por estigmas e estereótipos dentro das representações culturais, promove uma cultura de violência contra esses grupos dentro da escola e faz com esses estudantes sintam-se acuados e impedidos de exercer o seu pleno potencial.

 

A escola precisa ser um espaço de promoção de relações democráticas, pautadas pela celebração da diversidade que nos constitui. Na escola real, onde eu atuo há quase 30 anos, trabalhei com alunos e alunas diversos, tive alunos gays, lésbicas, trans, intersexuais e vi de perto como esses estudantes são ignorados ou alijados da escola. Vi dezenas de situações em que as meninas sofriam violências por parte de colegas e até de professores e eram obrigadas a conviver com a conivência e o silêncio da escola em relação a essas situações. As Teorias Críticas e Pós-Críticas do Currículo nos mostram que a aprendizagem no espaço escolar não é um processo neutro, e que para compreendê-lo em toda a sua amplitude e complexidade precisamos estar atentos não só a categorias como avaliação, didática, objetivos e planejamento, mas abordar, também, em nossos projetos político- pedagógicos, questões ligadas à identidade, alteridade, diferença, subjetividade, cultura, poder, raça, etnia, gênero, sexualidade.

 

Se todos nós desejamos que as nossas escolas trabalhem comprometidas com a garantia da aprendizagem dos e das estudantes, se como parte disso, nós desejamos que a escola se constitua em um espaço de fortalecimento da democracia, a partir da proposição de práticas e vivências pedagógicas democráticas, precisamos nos comprometer com uma agenda educacional antissexista, uma agenda educacional que celebre a diversidade. Não há opção de formação pedagógica de qualidade fora da democracia e não há educação democrática sem a celebração e o respeito à diversidade.

 

Pensando em tudo isso, que tal, da próxima vez que a sua escola for falar sobre elaboração de Projetos Político- Pedagógicos você propor uma reflexão sobre Tecnologias de Gênero? Que tal propor que a sua escola invista em formação de docentes que os ajude se qualificar em relação a esses temas? Podemos começar nos lembrando que estamos em ano de Olimpíadas e que a história sempre privilegiou a atuação dos homens nesses grandes eventos esportivos. Já pensou em promover um projeto pedagógico para resgatar a história de mulheres no esporte? Você conhece, por exemplo, a história de Aída dos Santos, única brasileira, mulher negra, a participar das Olimpíadas de Tóquio, em 1964? Ela teve um desempenho extraordinário, apesar de não receber nenhum apoio do Comitê Olímpico Brasileiro. Nesse mês em que comemoramos o Dia Internacional das Mulheres, deixo aqui como sugestão que você que leu a coluna dessa semana conheça a história da Aída dos Santos e se inspire nela.

 

Para quem quiser aprofundar as reflexões que propusemos aqui, sugiro as seguintes leituras:

 

Documentos de Identidade - uma introdução às teorias do currículo, de Tomaz Tadeu da Silva, editora Autêntica

Tecnologias de Gênero - Artigo de Teresa de Laurettis.


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