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Por que precisamos de uma educação antissexista? | Edição #1

Hoje nós iniciamos uma jornada de diálogos sobre a importância da promoção da igualdade de gênero nos contextos educacionais. E o primeiro ponto que precisamos abordar é o fato de que uma educação antissexista se faz necessária porque temos uma educação sexista. Pode soar estranho dizer isso, mas a escola, ainda que não intencional e conscientemente reforça os estereótipos de gênero que definem papéis diferentes para meninos e meninas desde a primeira infância. Não haveria problemas na definição desses papeis se eles fossem marcados pela igualdade. Mas, o que acontece é que aos meninos são atribuídos papeis relacionados ao domínio do espaço público, ao exercício do poder, da força e da intelectualidade e às meninas fica reservado o lugar da subalternidade. Isso ocorre quando, por exemplo, na escola, há a separação de brinquedos de meninos e brinquedos de meninas. Os brinquedos das meninas, na maioria das vezes, estão associados a panelinhas, bonecas, brincar de casinha e exercer o trabalho doméstico. Aos meninos são apresentadas possibilidades relacionadas a ser super heróis, salvar o mundo, construir com blocos de montar.

 

Em 1975, Elena Belloti realizou uma pesquisa em famílias, creches, escolas maternais, de educação infantil e ensino fundamental para observar como meninas e meninos são educados e os dados que ela encontrou apontam que desde cedo meninas são educadas para exercer papeis secundários, para silenciarem a sua voz, para agradar ao outro, para reprimir os seus próprios desejos e vontades. A pesquisadora nos lembra que: “ninguém se compraz quando descobre que é considerado um indivíduo de segunda categoria. Essa descoberta causa sofrimento, enfraquece a autoestima, diminui a ambição, limita a auto-realização (Belloti, 1979, p.69)”. Se meninas crescem crendo que são inferiores, para os meninos a educação sexista os leva a uma construção de masculinidades adoecidas, a partir das quais eles se percebem como superiores e têm dificuldades, muitas vezes, de enxergar nas mulheres pessoas, sujeitos de direitos e vêm nelas objetos obrigados a satisfazerem todas as suas vontades.

 

Dados do UNFPA, resultado de um relatório lançado em 2016, apontam que os desdobramentos dessa cultura sexista são devastadores para a vida das meninas. Infelizmente, o que a pesquisa de Belloti, realizada há quase 50 anos, nos mostrou segue ocorrendo. O relatório da Situação das Meninas revelou que, na maioria dos países pelo mundo, quando uma menina completa 10 anos de idade ela deixa de ser vista como pessoa e passa a ser percebido como um objeto, algo passível de ser explorado no casamento precoce, no trabalho infantil, no abuso sexual. Essa realidade impacta a vida das meninas e produz profundas desigualdades sociais. Uma cultura que apresenta como única possibilidade identitária para as meninas o casamento e a maternidade é uma cultura que as violenta. Segundo Astrid Bant, representante do UNFPA no Brasil: “Se ter um filho e um marido é o único objetivo com que essas meninas têm a chance de sonhar, já que não são lhe dadas outras oportunidades como estudar e ter um bom trabalho, é natural que elas sigam por esse caminho, forçadas direta ou indiretamente.  É preciso garantir que as jovens tenham seus direitos assegurados, além da oportunidade de exercer seu pleno potencial”. Promover uma educação antissexista significa colaborar para a construção de um mundo mais justo e mais bonito.

O relatório completo do UNFA pode ser obtido no link http://www.unfpa.org.br/Arquivos/swop2016.pdf

 

Quem quiser conhecer a pesquisa da Elena Gianni Belotti, recomendo a leitura do livro: “Educar para a submissão- o descondicionamento da mulher” da editora Vozes.


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