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A marginalização das nossas heranças culturais ancestrais africanas | Edição #1

Ao cruzar o Atlântico, os povos africanos foram sequestrados e trazidos para o Brasil após serem submetidos a rituais de negação da própria cultura e identidade. A tentativa de apagamento das suas memórias foi em vão, pois os diversos povos africanos que aqui chegaram trouxeram nas suas memórias uma bagagem de conhecimentos ancestrais nas mais diversas áreas.


Em Uidá ou Ouidah, Costa da África Ocidental, no Benin, encontram-se o Monumento Portal do Não Retorno e a Árvore do Esquecimento, construídos para homenagear milhares de africanos e africanas que foram deportados para as Américas e alguns países da Europa.  


O Portal do Não Retorno e a Árvore do Esquecimento são espaços físicos que materializam a memória de um período escravagista em que toda a tentativa de apagamento das culturas dos diversos povos africanos foram realizadas. Os negros e negras africanos foram obrigados a renegarem os seus nomes, os seus deuses, suas famílias, suas culturas, suas línguas e toda a sua humanidade e assim serem transformados em objetos de exploração.  


Durante o ritual de apagamento das memórias dos povos africanos na Árvore do Esquecimento, os homens eram obrigados a dar nove voltas em torno de uma árvore e as mulheres sete, pois dessa forma, o colonizador fazia os africanos acreditarem que eles perderiam as suas memórias e estariam aptos a receberem uma nova identidade cultural ao cruzarem o Atlântico. 


Apesar de toda as formas de atrocidades sofridas, os povos africanos escravizados no Brasil nunca tiveram as suas memórias apagadas e nos deixaram um legado que compõe a nossa cultura brasileira, e as diversas formas de resistência para garantir a cultura negra no Brasil. 


As proibições das práticas culturais e religiosas dos povos africanos sempre foi marginalizada e legitimada pelo Estado brasileiro e isso deve-se ao fato das pessoas negras serem consideradas por muito tempo perigosas, vistas como violentas, ociosas, promíscuas e representarem risco eminente para a sociedade.  


A Capoeira, o Samba, as religiões de matrizes africanas sempre sofreram preconceitos e discriminações. Hoje em dia, não é diferente o racismo e o preconceito com a produção cultural de origem negra e produzida por pessoas negras como o Funk e a cultura Hip Hop, ambos muito vivenciados nas periferias e favelas do país em que a maioria da população que vivem nesses espaços são pessoas negras. 


A culinária afro-brasileira tem muita influência da cultura negra africana. Na Bahia temos o acarajé, bolinho feito de feijão fradinho frito no azeite, tombado pelo IPHAN  (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde 2004. O acarajé é um alimento sagrado para os povos de terreiro, um alimento oferecido a orixá Iansã, o nome acarajé é de origem iorubá que significa “acará” (bola de fogo) e “jé” (comer), ou seja, “comer bola de fogo”. Infelizmente a desconstrução dos símbolos da cultura africana sempre esteve na sociedade brasileira e ainda hoje encontramos grupos evangélicos que insistem em se apropriar indevidamente da cultura dos povos negros escravizados, como é o caso dos grupos e pessoas que comercializam o acarajé de Jesus e praticam a capoeira gospel. Ações como essas, são formas de negar a resistência secular dos povos negros escravizados conquistada com muita luta e sangue derramado, deslegitimando assim, toda a luta dos povos negros e o legado deixado por essas pessoas na nossa cultura. 


A mitologia africana que nos ajuda a compreender os valores civilizatórios africanos também é alvo constante de preconceito. As divindades nos fazem refletir sobre os princípios e as leis da natureza como em qualquer outra cultura, porém é a única que sofre perseguição no nosso país. Nas escolas se ensinam sobre a mitologia grega, romana, chinesa, indígena e tantas outras, mas a mitologia africana ainda é a que continua sendo silenciada apesar da garantia da Lei. 10.639/2003, que obriga as escolas a trabalharem a cultura africana na sala de aula.  


Combater toda a forma de preconceito contra a cultura africana é contribuir para garantir a memórias de milhares de homens e mulheres negros sequestrados da África que nos deixaram um legado extraordinário em nossa cultura brasileira apesar de todas as formas de violência sofrida.

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